terça-feira, abril 06, 2010

De livros: paixão.

O lançamento do Ipad, com todo o alarde que o milionário mundo da tecnologia torna previsível, gerou repercussões tanto a respeito das potencialidades do novo aparelhinho de Steve Jobs, quanto sobre as conseqüências que o equipamento poderá trazer, por exemplo, para o mundo das letras.

E o ser humano, que não consegue sobreviver sem especular sobre a sua auto-aniquilação, ou sobre a aniquilação daquilo que o cerca, volta a discutir mais uma possibilidade de fim: a do livro tal qual o conhecemos.

Há alguns meses, um canal de TV a cabo exibiu reportagem em que já discutia essa temática a partir do lançamento de dois, digamos, precursores do Ipad: o Kindle e o Reader. Ambos, de forma resumida, são equipamentos de leitura de jornais, livros e revistas, cujas espessuras são, na maioria das vezes, muito inferiores às dos meios de comunicação que pretendem substituir. Os seus atrativos são inumeráveis: da facilidade de transportar o equipamento aonde quer se vá, à tela especialmente desenvolvida para facilitar a leitura nos lugares, momentos e condições mais improváveis.

Já nessas reportagens, assim como provavelmente naquelas que o Ipad ainda estimulará, leitores dos mais variados matizes opinam sobre a questão que não quer calar: o livro de papel vai acabar?

Para a minha grande felicidade, a resposta quase unânime foi um retumbante e contundente não. Dentre os argumentos dados a respeito da preservação do livro nosso de cada dia, estavam, por assim dizer, os mais prosaicos (como folheá-lo como bem se quer) aos mais sentimentais.

Enquadro-me nessas duas modalidades de argumentação e, provavelmente, na fusão entre ambas. Apesar de admirar e gostar muito da tecnologia (ainda que eu não seja seu mais habilidoso usuário), acho que tais avanços ainda não conseguem facilitar a leitura a ponto de torná-la tão subserviente aos nossos desejos (manuais) como o fazemos hoje. O livro em seu formato tradicional nos permite manuseá-lo, com facilidade, como bem o quisermos. Já a sua versão digital, apesar de todas as facilidades já conquistadas, ainda não se iguala quando o assunto é, por exemplo, ir ou voltar a uma determinada página. Mas isso, reconheço, é questão de tempo. Chegará o dia em que, creio eu, um simples comando de voz permitirá que percorramos o livro como bem pretendermos e com uma velocidade e facilidade assustadoras.

Tenho até mesmo a certeza de que, exatamente por tais recursos tecnológicos, a leitura – especialmente entre os jovens – poderá ser estimulada, desde que decorrentes de políticas (sobretudo educacionais) apropriadas. Ah, e não nos esqueçamos dos motivos ecológicos. Livros digitais podem ajudar a, enfim, preservarmos nossas florestas.

Mas o argumento para a minha paixão pelo convencional (e olhe que não sou tão afeito a convenções) é que o livro em papel tem um encanto que não se rende à tecnologia alguma. O ritual começa ao se ingressar numa livraria (ou mesmo num sebo) e deixar-se seduzir pelos títulos, pelas capas, pelas prateleiras impecavelmente organizadas ou por aquelas deliciosamente caóticas (para ilustrar melhor: de uma Livraria Cultura a uma Shakespeare & Co. – que ainda hei de conhecer). E deixar o olhar, por alguma razão misteriosa, fixar-se num determinado exemplar. Retirá-lo da prateleira, ler sua orelha, seu índice remissivo (quando o há), suas dedicatórias, um trecho de algum capítulo ou sua última frase (este, um cacoete meu, de anos).

Sentir-lhe o peso e o cheiro é outra etapa cujo fascínio o ritual desperta. O livro tradicional tem uma beleza incomum, que nada tem a ver com o desenho de sua capa, a cor ou a gramatura das suas páginas, o tamanho e o tipo de suas letras. É muito provavelmente aquilo que se poderia chamar de beleza transcendental. Mais ou menos como a daquela mulher cujos atributos físicos escapam à rigidez burra dos estereótipos mais recorrentes, mas que inebria, com sua inexplicável sensualidade, qualquer homem que lhe lance o mais furtivo olhar.

O livro de papel não só tem beleza e cheiro: tem som. E não há aí nenhum sentido figurado. Muito pelo contrário: é um som físico, propagado por ondas sonoras de verdade. Barulho, quase zoada. Cada passar de página tem um sonzinho único, que jamais se repetirá. Faça o teste. Eles podem até ser parecidos. Nunca iguais. Também tem o som produzido quando sutilmente o tocamos, ou o colocamos sobre a mesa, ou na prateleira. Som abafado, discreto, elegante. Quase igual ao da garrafa do vinho de boa safra que se agarra com firmeza e se posta diante dos dois pratos à mesa, iluminados pelas chamas bruxuleantes de uma vela já parcialmente consumida.

Resta a sensação de chegar em casa e, depois de todos os afazeres (isso se a ansiedade lhe permitir) deitar-se na cama ou estatelar-se numa poltrona confortável e dar início à leitura. As primeiras páginas são descobertas não apenas do enredo que se inicia, mas de universos que se abrem: do autor, dos ambientes, da narrativa, da época a que ela se refere, e, sobretudo, do nosso próprio universo, em conflito (harmônico ou não) com todos os universos com os quais nos depararemos.

O livro em papel é atrevido. Desafia-nos desde o momento em que o vimos pela primeira vez e nos desafiará mesmo depois de o termos lido. Sua vida depende de nós. O ressuscitamos a cada vez que o abrimos e o matamos imediatamente ao fechá-lo – temporária ou definitivamente.

2 comentários:

Thiago Romariz disse...

Que belíssimo texto. Não poderia concordar mais. A satisfação e sensação de ler um livro é inigualável e insubstituível. Mas não podemos negar que substituir o papel por memória digital é um boa opção.

PS: tenho o mesmo cacoete que vc, ler aultima frase do livro! hahaha

Parabéns pelo txto, Wagner!

Raquel Elena M. dos Santos disse...

"Mas o argumento para a minha paixão pelo convencional (e olhe que não sou tão afeito a convenções) é que o livro em papel tem um encanto que não se rende à tecnologia alguma. O ritual começa ao se ingressar numa livraria (ou mesmo num sebo) e deixar-se seduzir pelos títulos, pelas capas, pelas prateleiras impecavelmente organizadas ou por aquelas deliciosamente caóticas (para ilustrar melhor: de uma Livraria Cultura a uma Shakespeare & Co. – que ainda hei de conhecer). E deixar o olhar, por alguma razão misteriosa, fixar-se num determinado exemplar. Retirá-lo da prateleira, ler sua orelha, seu índice remissivo (quando o há), suas dedicatórias, um trecho de algum capítulo ou sua última frase (este, um cacoete meu, de anos)." Meu ídolo! Tenho um pouco disso também! ;)