terça-feira, fevereiro 22, 2005

Andando de ônibus na capital do Brasil

Como prometido no post anterior, preciso desabafar com vocês e contar o que é andar de ônibus em Brasília. Há quase duas semanas, para minha infelicidade, este tem sido o meu meio de transporte. Isso porque a Vivi está fazendo um curso de formação cujas aulas começam quase de madrugada (8h). Como tenho aversão a acordar muito cedo, deixo-a com o carro e sigo para o meu trabalho um pouco mais tarde, by bus!
Estou em Brasília há apenas seis meses. Depois de muito apanhar e de me perder pelas vias daqui, já sei me orientar muito bem, obrigado. Mas só quando estou de carro. Há, aqui na capital federal, uma curiosidade em relação aos ônibus decorrente do fato de a cidade ser toda planejada. Em outros lugares, os transportes vêm com os nomes dos destinos ou com números que indicam para onde seguirão. Aqui, é uma loucura. Não há nomes nem números. Há letras e números, só que tudo misturado! Você, por exemplo, saberia dizer para onde vai o ônibus cujo letreiro exibe: “EPNB”, ou “Qd 800”, ou “EAS L2”, ou “Scrn”? E o “QNQ/QNR”? Eu, hein, acho que isso leva a gente lá pra PQP...
Moro, como vocês já devem saber, na 210 da Asa Sul, mas trabalho na 510 da Asa Norte. Para quem conhece a cidade, é fácil de entender. Aos outros, devo resumir dizendo que ir de casa pro trabalho e vice-versa significa mover-me de um lado a outro da cidade. Além de serem de lados opostos, a minha casa e o meu trabalho ficam em eixos diferentes. Quando estou de carro, nenhum problema. Faço as devidas “tesourinhas” (retornos à la Brasília) e chego facilmente a um dos dois destinos. Mas, de ônibus, só tenho duas alternativas. A primeira, chamada de Grande Circular, passa na Via L2 Sul, a mais próxima da minha casa, segue pela L2 Norte e sobe para a W3 Norte, onde está o meu ganha-pão. Parece simples, deveria ser, mas não é. Depois explico por que. A outra alternativa é a chamada “zebrinha 23”. Zebrinha mesmo. É assim que eles chamam um micro-ônibus vermelho e branco que existe por aqui.
O percurso desse outro é complicado e desafia qualquer lógica ou sopro de inteligência. Na minha primeira experiência de ônibus aqui, o peguei aqui na L2. Passei na roleta, acomodei-me e fui vendo a paisagem. Pensei que a bendita zebrinha iria pela L2 Sul até chegar ao Eixo Monumental, que divide a cidade ao meio. De lá, pela lógica, seguiria para a W3. Falei bem: pela “lógica” seria assim, mas, aqui, as coisas nem sempre obedecem a essa saudável prática de raciocínio. Antes de chegar ao Eixo Monumental, a “zebrinha” (que a partir de agora chamarei de “eguinha pocotó”), fez o retorno para o Setor de Autarquias Sul. Tudo bem, sem problemas. De lá, certamente iria seguir direto para a W3.
Mais uma vez errei. A partir desse momento, a danada da eguinha se embrenha por infinitas tesourinhas até chegar à parte superior da rodoviária do Plano Piloto, que parece um mercado persa — mas isso é outra história. Pára entre vans e muita muvuca. Do lado oposto, está o shopping Conjunto Nacional, aonde se chega andando menos de cem metros. Ok, a “eguinha” deixou uns passageiros, pegou outros e partiu. “Agora, vai!”, raciocinei. Ela foi mais pra frente, pegou o tal do “redondo” no qual eu me perdi assim que cheguei aqui, e parou num sinal. Uma placa mostrava o nosso destino: via W3 Norte. “Agora vai ser rápido”, respirava eu, aliviado. Que nada. Pois não é que, já estando do lado norte da cidade, a porra da egüinha filha de uma égua volta para o Sul?! Inexplicável. Ela volta para deixar e pegar mais passageiros em frente ao Conjunto Nacional, de onde acabara de sair!!! “Ah, mas é porque essa parada que ele deu agora há pouco não era a do Conjunto Nacional, mas só pra Rodoviária”, explicou-me uma gentil senhora a quem perguntei porque a vaca da zebra estava voltando pro Conjunto Nacional. Fiquei puto. “Pô, será que a pessoa não pode caminhar os poucos metros que separam a rodoviária do Shopping?”, reclamei em pensamento. Mas isso ainda não foi o pior. Para sair do estacionamento do referido shopping, a coitada da zebra só falta morrer de cansaço tamanha são as voltas que tem de dar. Para sair desse estacionamento, o motorista é obrigado a traçar um percurso tão maluco quanto a pessoa que projetou aquilo ali. Temos de sair e entrar do estacionamento várias vezes! Uma doidice só.
Enfim, chega uma hora em que conseguimos. Aí, sim, vamos para a bendita W3. De lá, sem novos transtornos, cheguei ao meu trabalho.
A volta para casa pelo tal do “Grande Circular” foi uma “Grande Bosta”. Peguei o ônibus na calçada do meu trabalho. Estava esperançoso porque, de acordo com as informações que me haviam sido dadas, o tal o Grande Circular não faz toda aquela volta maluca que a tal da zebrinha faz. Ele vem por toda a W3 Sul, segue pela W3 Norte, até o seu final e, de lá, entra para a L2 Norte, chegando, enfim, a L2 Sul. Lá fui eu.
Antes de o ônibus chegar, porém, passei maus bocados no ponto. Aqui, como acontece em todas as cidades desse Brasilzão, as vans estão tomando conta do cenário do transporte público. A cada segundo, parava uma besta com uma besta de cobrador mais escandaloso que o outro. E tome a gritar os confusos nomes dos destinos para onde seguem. Ok, chegou meu veículo. O ônibus era bom. Novinho e limpo, parecia dizer que eu tomara atitude correta ao optar por ele. Como vocês sabem, pão de pobre sempre cai com a manteiga pra baixo. Em outra palavras: alegria de pobre dura pouco. Quando chegou ao final da W3 Norte, o motorista, em vez de seguir direto para a L2 Norte, desviou da rota e estacionou de frente a uma garagem de ônibus. “Me fodi”, pensei logo. “Acho que aqui é o ponto final, terei de descer e pagar mais R$ 1,60 por outro ônibus”. Nada disso, angustiado forasteiro. A cobradora me disse que ali era só uma “paradinha rápida”. Rápida só se fosse pra ela, que desceu do ônibus e correu pra dentro da tal da garagem.
Não sei. Suspeito que, pela pressa com que desceu do “coletivo”, a cobradora foi é arriar o barro. Ou, no popular: dar uma cagadinha. Aliás, uma cagadona, pois a bandida nunca que voltava. E os pobres lá, esperando a cagona... 5, 10, 15, 20 minutos ela demorou pra ... digamos, “tirar o bolo do forno”. Voltamos a seguir viagem.
Por fim, os passageiros daqui são um capítulo à parte. Claro que isso acontece em todos os lugares, mas parece que aqui, pela mistura de gente de todos os cantos do Brasil e de todas as classes sociais, o fenômeno é mais visível. Por exemplo, tinha um cidadão extremamente bem arrumado. Terno, gravata e, mesmo no final do dia, um cabelo intactamente bem moldado pelo gel. Em compensação... Pessoal, me sobe uma criatura tão... tão... tão exótica que não sei se conseguirei descrever.
Era uma moça de uns 25 anos, mulata e com cara de quem estava indo pra aula. Até aí, nada de anormal. Mas a indumentária da cidadã, até para um leigo em vestuário como eu, era de arrepiar. A calça da moçoila era daquelas de cintura baixa, jeans desbotado e rasgado, mas tão justa que tenho certeza de que só seria removida com cirurgia. A barriga, que ela propositalmente (sei lá porque) insistiu em deixar de fora era meio avantajada. Por isso, metade dela caia sobre um dos mais interessantes detalhes de sua vestimenta: o cinto! Minha gente, era um troço cor-de-rosa, da largura do caderno que ela carregava, cheio de correntinhas prateadas caindo por todos os lados e com uma fivela do tamanho de um porco. A mini-blusa da figura apertava-lhe tanto os peitos que, se ela estivesse amamentando, lhe escorreria leite pelas orelhas! Orelhas, aliás, que traziam praticamente dois aros de bicicleta cada uma. Não sei se aquilo eram brincos ou bambolês que estava levando de presente para alguma amiga. Um piercing nas ventas a deixava com uma leve semelhança com um touro. Nos lábios, o batom era mais vermelho que o rabo do capeta. Talvez fosse pra combinar com as unhas, certamente postiças, pintadas com o mesmo “vermelho-desespero”. Todos do ônibus ficaram meio chocados (ou penalizados) com aquela visão. O quadro se completou quando ela passou ao meu lado. O perfume era tão forte e ardido que, suspeito, ela banhou-se com desinfetante (“Veja Desengordurante”, pra ser mais exato).
Mais tarde, quando eu pensei que o desfile de esquisitices tivesse terminado, eis que me sobe sabe quem no ônibus? Ela: Yoko Ono, a viúva de John Lennon! A própria, gente, em carne, osso, cabeleira e feiúra! “Pô, bem que ela poderia animar a nossa viagem e dar uma palhinha, cantando, sei lá, algo como “Yellow Submarine” ou “I Wanna Hold Your Hand”. Seria bem divertido. Mas aí, percebo algo estranho. Primeiro, que ela está muito jovem, na casa dos 30, no máximo. Segundo — e aí a mais grave observação — ela tinha pomo-de-adão!!! Pega! Uma impostora! Tucanaram a Yoko Ono ou ela virou homem? Deu um nó na minha cabeça. Puxei mais ar pra dentro dos pulmões e me refiz do susto. Aí, percebi a realidade: ela era ele. Ou seja, a Yoko que subira no meu ônibus nada mais era do que um jovem japa doidão, de camisa preta, cabelos até a cintura, óculos pretos e redondinhos. Sacanagem, mas... Let it be, let it be...
A viagem, no final das contas, terminou bem. Bem ruim...

5 comentários:

criminal disse...

vala-me deus...

Anônimo disse...

Hahahahaha... ai... Hahahahaha!!!!
Muito bom, Wagner, parabéns!!
Vc descreveu com perfeição o suplício do transporte público de Brasília!
Ana Laura

Wagner Vasconcelos disse...

Lalá!!!
Que coisa ótima a sua volta.
Obrigado pelo elogio. Beijão
P.S: Bola pra frente, estamos torcendo por vocês.

Anônimo disse...

Meu querido, bem vindo ao time... Vim trabalhar durante uma semana de ônibus... pegando direitinho sempre o mesmo e, por incrível que pareça, cada dia ele fazia um caminho diferente... Essa é a Capital Federal...rs...
Beijinhos,
Jane

rafael disse...

caracas eu to chegando agora em brasilia e a"eguinha" sera meu transporte pelos proximos meses e apos essalida creio q devo sair umas 3 horas mais cedo na primeira semana
auhauhuha
vlws muito bom cara
fuizzzzzzz