segunda-feira, maio 12, 2008

Brioches de coco

Dona Aparecida já estava no portão quando decidiu retornar. Embora estivesse nove minutos atrasada (por suas contas sempre tão precisas) achou melhor buscar o guarda-chuva, já que ventos fortes e nuvens negras cresciam em força e quantidade. Estava certa. Tão logo atravessou a rua, começaram a cair os primeiros pingos. Não muito fortes, mas espessos o suficiente para molharem roupas, cabelos e ânimos. Apressou ainda mais o passo. Precisava chegar à padaria antes que as longas filas do final da tarde se formassem.

E ela conhecia bem aquelas filas. Há 36 anos. É verdade que vez ou outra fazia amizades enquanto aguardava a hora de ser atendida. Mas em geral a espera sempre a incomodou. Ainda que o seu Nogueira, dono do estabelecimento, sempre tenha sugerido que ela, cliente antiga, não precisava entrar na fila, dona Aparecida resistia. Respondia insistentemente que não era melhor - nem pior – do que ninguém. E que, se uma fila havia, havia ela de aguardar a vez de ser atendida.

A espera não a desagradava por sua simples impaciência. Mas pela expectativa que lhe gerava. Dona Aparecida era mais do que perfeccionista. Era metódica e supersticiosa. Achava que as coisas tinham hora e formas de acontecer. Desobedecer a tais rituais era certeza de que algo sairia errado. Era preciso chegar logo em casa, trocar a toalha decorativa da mesa da copa pela outra, branca em sua parte central e amarelo ovo em seu contorno – ornado com minuciosos bordados. Os desenhos da toalha a agradavam. Davam, segundo ela, mais apetite, saciando, aos poucos, primeiro os olhos e depois o estômago. Sempre repetia essa frase. As toalhas eram religiosamente trocadas às sextas-feiras. Invariavelmente. Só que poucos se dariam conta de tal mudança. Afinal, as toalhas de reposição eram milimetricamente idênticas àquela que fora ao tanque.

Posta a toalha, chegara o momento mais prazeroso: decorar a mesa. Primeiro, os pratos: um fundo, para sopa, e um de sobremesa. Nada de copos – invenção, segundo ela, responsável pela deselegância moderna das mesas da maioria dos lares. “Em mesa só se põem xícaras”, apregoava ela, na tentativa de difundir um pensamento que certamente só faria sentido a ela mesma. Jurava que ali era espaço para se beber apenas leite, café e chá – e sempre em xícaras.
Após as xícaras – uma para o chá, outra para o leite –, dona Aparecida seguia para os talheres, as frutas, o pão, a manteiga, o queijo branco. Um pote de geléia e outro de mel. Um açucareiro e um bule com água fervente. E uma travessa com a sopa. Um cestinho especial era coberto com guardanapos de papel decorados e colocado estrategicamente ao centro da mesa. A intenção era exatamente essa: fazê-lo ser o centro das atenções. Afinal, era ali que seria cuidadosamente colocada a razão principal para sua ida diária à padaria de seu Nogueira: os brioches de coco.

Eram sempre três, dispostos no cesto da mesma forma: dois na base e um por cima deles. Sabia que só um seria consumido naquela noite, e que os dois sobressalentes iriam deliciar o voraz apetite de Tobias, o vigia noturno que, às onze horas da noite, dava uma parada em frente ao portão para receber “um reforço para o resto da função”, brincava ele ao tirar o chapéu para cumprimentar dona Aparecida, com a gratidão e o sorriso de sempre.

Os brioches de coco eram, segundo dona Aparecida, a última alegria de seu Apolinário, homem ao qual a felicidade decidira abandonar há 25 anos, quando morreram sua amada esposa, Angélica, e seu único filho, André – vidas ceifadas pela tuberculose num intervalo de 10 dias entre uma e outra.

Desde a perda dos dois, seu Apolinário sorria apenas quando via os brioches e, por mais que os comesse todos os dias, repetia que os daquela noite estavam especialmente deliciosos. Emendava o comentário com um olhar de profunda gratidão a dona Aparecida, que, embora o conhecesse há 43 anos, ainda baixava os olhos com uma certa timidez diante do agradecimento. Proporcionar esse raro momento de felicidade a quem a vida deixara marcas tão profundamente doloridas fazia dona Aparecida sentir-se o ser mais especial do mundo. Dizia que poderia morrer com a certeza de ter cumprido sua missão na Terra: tornar alguém feliz – ainda que por poucos instantes.

E tornar seu Apolinário feliz era o maior desafio e maior desejo de dona Aparecida. Afinal, dizia ter para com ele a mais sincera e incondicional gratidão do mundo. Era criança quando chegou à casa dele, levada pela mãe para auxiliar nos afazeres do casarão de dois andares. Um senhor de já 40 anos àquela época, seu Apolinário sempre dedicou especial atenção à menina risonha, esperta, de olhos curiosos e mãos ágeis que fora dona Aparecida. Presenteava-a sempre em datas comemorativas e em seu aniversário. Jamais deixou que o filho André a destratasse ou dela sentisse ciúmes. Ajudou a mãe de dona Aparecida nos momentos mais difíceis de sua vida, como quando da perda do esposo, pedreiro morto em um acidente de trabalho. Construiu para as duas, agora sozinhas no mundo, um quarto-e-sala no quintal, e que para elas mais parecia um palácio. Cuidavam do espaço com um esmero raramente encontrado.

Cuidou da saúde da mãe de dona Aparecida até os últimos suspiros de sua vida. Comprou-lhe remédios, pagou-lhe consultas médicas e, quando o destino resolver realmente encerrar-lhe a vida, deu a ela um enterro digno dos amigos e freqüentadores da casa.

Além disso, seu Apolinário sempre dirigiu palavras doces e estimulantes à dona Aparecida. Agradecia e parabenizava cada ato dela, como se fosse possível tornar diariamente melhores tarefas tão corriqueiras – as camisas bem passadas, os móveis bem lustrados, a cama bem forrada, o assoalho sempre brilhante.

Sugeriu-lhe, quando ela estava em plena juventude, abandonar os afazeres domésticos e dedicar-se aos estudos, para conseguir progredir na vida. Assegurou-lhe lar e alimentação caso ela aceitasse a proposta, e dizia que contrataria outra empregada para cuidar da casa. Dona Aparecida, embora sempre agradecesse à oferta, jamais a aceitou. Repetia que nada mais queria da vida a não ser tratar da melhor maneira possível o homem que, para ela, representava Deus na Terra. Aprendeu a ler e a escrever apenas para satisfazer ao patrão, mas não avançou nos estudos para não cair na tentação de abandonar as tarefas do lar.
“Nada, nada nesse mundo se compara à felicidade que sinto ao ver seu Apolinário sorrir diante dos brioches”, repetia a quem quer que fosse, dona Aparecida.

Chegara a vez de ser atendida na padaria. Mas, percebeu algo de diferente. Estranhou o olhar de seu Nogueira ao dar-lhe o cordial boa tarde. Por tras das lentes dos óculos colocados na ponta do nariz, ele disse a ela:
- Dona Aparecida, a senhora vai me desculpar, mas não tem mais brioche de coco.
- Ué, seu Nogueira. Mas já acabou? Eu nem me atrasei tanto assim. Tudo bem, espero sair mais e volto ainda mais rápido para casa, respondeu ela.
- A senhora não entendeu, dona Aparecida. Não fazemos mais brioche de coco.
- Como assim, seu Nogueira?! Pare de brincadeira, homem, porque que tenho mais o que fazer... protestou ela, sentindo que havia realmente algo de errado ali.
- Dona Aparecida, esses brioches não têm saída. A senhora é praticamente a única que os compra. Estou modernizando o estabelecimento, ampliando a produção e, por isso, não tenho mais condições de fazê-los. É prejuízo pra mim...
- Mas o senhor não pode fazer isso, seu Nogueira! Ninguém faz brioche de coco como o senhor. O senhor não pode fazer isso com seu Apolinário. Essa é a única alegria dele na vida. O que eu vou fazer?, questionou ela com os olhos embotados.
- Olha, dona Aparecida, eu realmente sinto muito, mas a senhora pode encontrar brioches de coco lá na padaria do Antero, que a senhora conhece bem.

Dona Aparecida não conseguiu responder. Sentiu-se paralisada. A sensação de que não pudesse conceder mais aquele mínimo momento de alegria a seu Apolinário a deixou atônita. Não conseguia raciocinar direito. Saiu da padaria levada pelas pernas, pois, por sua vontade, ficaria ali, até morrer. Nada seria pior que decepcionar o patrão. Não se despediu de ninguém e sequer abriu o guarda-chuva. E a chuva engrossara. Com ela, um vento frio e forte arrastava tudo o que estava largado pelas ruas e calçadas.

Dona Aparecida não se importou com a roupa encharcada e com o frio que seu corpo sentia. Caminhava quase cega pelo meio da rua. Precisava pensar em algo, resolver a situação o mais rápido possível, afinal, aproximava-se a hora do jantar. Sentiu o coração bater mais acelerado, as mãos tremerem e os olhos verterem as primeiras lágrimas. Sentiu o gosto salgado do choro da decepção que já não conseguia mais conter. Acelerou o passo, sem saber para onde ia. Já não ouvia mais nada. Caminhava apressada e atordoada pela rua, que, naquele ponto, começava a formar uma ladeira.

Dona Aparecida nem se deu conta do esforço que fazia para subir aquela ladeira, e que a água da chuva começava a produzir uma correnteza contra a qual caminhava. Os trovões, que sempre lhe causaram medo, dessa vez sequer foram notados por ela. Em sua mente apenas reinava o pensamento e a dor da tristeza que estava prestes a vivenciar.

Não observou os gritos e acenos das pessoas na calçada, avisando, desesperadamente, para ela sair da rua. Não ouviu nem sentiu nada. O impacto contra seu corpo do carro que descia desgovernado a ladeira apenas anestesiou-lhe a angústia. Viu, em seguida, pessoas ao seu redor, mas um silêncio inexplicável de repente tomou conta de si. As pessoas começaram a se tornar embaçadas, até desaparecerem por completo de sua visão, coberta pelas pálpebras que jamais tornariam a levantar-se. Estava morta.

Em seu enterro, apenas seu Apolinário permaneceu até que a placa de concreto cobrisse totalmente a cova. Ele pegou uma flor encharcada e a deixou sobre a placa. Pôs mão esquerda no peito e a direta sobre o túmulo. Lançou um olhar melancólico àquela sua última companheira e disse: “Mas, dona Aparecida, eu nem fazia questão dos brioches. Só daquele brilho no seu olhar...”

2 comentários:

Ana Laura Naves disse...

Meu Deus! Que coisa linda!

Anônimo disse...

Simplesmente brilhante! Andrea