terça-feira, abril 03, 2007

As diaristas

Não creio que seja tarefa tão árdua encontrar uma diarista para dar conta daqueles afazeres domésticos que a gente só decide realizar quando a paciência e a disposição permitem. Estou revendo os meus conceitos, porém. Aqui em Brasília, temos tido experiências quase traumáticas com as moças que por nossos apartamentos passaram para nos dar uma mãozinha.

Assim que chegamos por aqui, encontramos uma moça que parecia atender bem as nossas necessidades. Desenrolada e dinâmica, ela conseguia deixar a casa em ordem mesmo quando morávamos no gigantesco apartamento de quatro quartos que ocupamos na Asa Sul.

Mudamos de imóvel e, com o tempo, de idéia em relação à nossa “secretária”, como também gosto de classificar as diaristas. As coisas começaram a não ficar assim tão bem feitas, algumas tarefas não eram cumpridas e o cheiro de cigarro denunciava que, em nossa ausência, a moça dava vazão a seu vício tabagista. Se não fosse eu alérgico a tudo o que se relaciona a cigarro, juro que nem reclamaria.

Mas acho que foi exatamente a ausência de reclamação que fez com que as coisas entrassem numa irreversível trajetória de piora. A cidadã já não cumpria com tudo o que era preciso. Por exemplo: os panos de chão, que ao longo da semana deixávamos de molho para ela lavar, permaneciam impávidos e intocados nos baldes depois que ela ia embora. Mas, como ela era de nossa confiança, não dava trabalho e de quebra ainda era idolatrada pelo glorioso Lupi (nosso cachorro), íamos levando a situação.

Até que, repetidas vezes, trágicos sumiços de pertences nossos começaram a acontecer. Aí, foi f... Não queríamos admitir ou sequer aventar a possibilidade de ela ser a autora das repetidas “subtrações”, mas provas que não vem ao caso relatar não nos deixaram mais ter dúvidas.

Bem, foi-se a criatura, ficou o dilema. E agora? Não somos aquele tipo de casal que não faz absolutamente nada dentro de casa. Muito pelo contrário: exercemos muito bem os afazeres domésticos. Eu, por exemplo, criado pela impecável e implacável Dona Sueli, aprendi todos os mistérios de faxinas eficientes. Lavo um banheiro, varro e passo pano no chão como poucos seres humanos. A Vivi também não deixa a desejar.

O problema é que não achamos justo usar os nossos poucos momentos de descanso realizando afazeres perfeitamente “terceirizáveis”. Por isso, optamos por diaristas. Mas só uma vez por semana, pois ao longo dos outros dias damos conta do recado. E olha que não somos dos mais exigentes. Afinal, não pedimos que façam comida e serviços fora de casa. De quebra, ainda moramos em apartamentos muito pequenos, que não dão tanto trabalho assim.

Bem, despachada a figura, lutamos para arranjar outra. E apareceu. Mas era melhor que nem tivesse aparecido. Se bem que eu não testemunhei a atuação da dita-cuja, pois estava viajando. Mas, segundo a Vivi, a coisa foi medonha. Tratava-se, de acordo com o depoimento dela, de uma figura nada simpática e que, mesmo sem jamais ter visto a Vivi em toda a sua existência, já foi logo tratando de falar mal das outras “patroas”. Péssimo sinal. Tão ruim que nem o Lupi, que adora todo mundo que chega a nossa casa, quis proximidade com a cidadã. Na verdade, ele ficou o tempo inteiro aos pés da Vivi, sem dar a menor bola pra diarista. Mas eu descobri a razão.

Ao falar sobre animais, a moça disse a Vivi que o cachorro da casa dela havia morrido há alguns dias. Esperto e precavido como ele só, o Lupi tratou de manter-se distante dela, já que não sabia se o cachorro da figura havia morrido de morte morrida ou de morte matada. E ainda dizem que os bichos são irracionais... Ela também não voltou mais.

A terceira experiência foi cômica. Na verdade, recebemos uma senhora de seus quase 50, mas aparentando (pela forma física e pela disposição) quase 80. A coitada até que era boazinha, mas a lentidão dela era assustadora. Lembro que foi a nossa casa na época em que minha mãe passava uns dias conosco. Pois bem, quando voltei do trabalho na hora do almoço, encontrei minha mãe lavando louça e ajudando a criatura, que ainda não havia chegado, sequer, à metade da pilha de roupas que deveria passar. Para ajudá-la, minha mãe resolveu participar da faxina – já impaciente com a criatura.

O mais cômico foi quando, à tarde, a cidadã postou-se diante da minha mãe e colocou diante do rosto dela uma cueca minha que encontrava-se no banheiro. Explico: costumo lavar as minhas cuecas na hora do banho. Quem achar ruim que venha lavar, então! Bem, a cidadã colocou a peça quase grudada nos óculos de dona Sueli e disse, exatamente com essas palavras: “Ei, vê isso aqui. Tá limpo, é?” Assustada, a sogra da Vivi apenas concordou, informando à trabalhadora que o fato de a cueca estar molhada e cheirosa significava que já estava lavada, sim.

Quando liguei do trabalho para casa, lá por volta das 15h30, minha mãe disse que a infeliz ainda estava passando roupas e que continuava a ajudá-la! Resultado: a figura foi embora sem terminar tudo o que deveria ter feito. Mas também nunca mais foi convidada a voltar.

A seguinte, já em nosso novo imóvel, foi indicada por outra amiga nossa. Figura relativamente simpática, boazinha e educada, parecia predestinada a nos fazer felizes. Parecia. Apesar de fazer tudo direitinho, passar a roupa muito bem, deixar a casa limpinha da Silva e ainda adorar e ser adorada pelo Lupi, era meio esquisita.

Nada contra gente esquisita (nem contra festa estranha), mas a moçoila começou a me deixar preocupado por uma simples razão: não queria saber de comida. Como praticamente não temos alimento em casa (pelo menos não na concepção nutritiva do termo) sempre somos obrigados a recorrer a restaurantes para nos mantermos alimentados. Quando temos diaristas, trazemos as quentinhas delas dos restaurantes.

Logo no primeiro dia em que a moça veio, a Vivi disse que eu poderia comprar a comida dela num restaurantezinho que existe de frente ao nosso prédio. Fui lá e não gostei. O aspecto do local não era dos mais agradáveis, bem como a clientela (sem querer ser preconceituoso, mas já o sendo). O cheiro do ambiente também não me agradou, mas como a Vivi disse que um conhecido já comera ali e até gostara, resolvi arriscar. Fui advertido, antes de sair de casa, pela própria diarista, que eu deveria trazer uma quantidade muito pequena de comida, pois a figura dizia comer muito pouco. Achei que era só educação ou timidez e fiz um prato relativamente bem composto, cerca de 200 gramas (nada pra mim, mas uma enormidade pra ela, descobri em pouco tempo).

A criatura fez cara de espanto dizendo que tinha muita comida. Deixou muito mais que a metade. Cismado que eu estava com o restaurante, achei que fosse por causa da qualidade da comida. No sábado seguinte, reduzi ainda mais a quantidade, do mesmo restaurante. E qual foi a surpresa quando vi que a inocente ainda havia deixado muita comida! Porra, só pode ser o restaurante! “Coitada”, pensei eu, já morrendo de remorso.

No sábado seguinte, decidi fazer uma surpresa a ela e trouxe comida de um restaurante bem legal, com variedade bem razoável e comida e clientela de bom nível. Fui a ele por alguns sábados seguidos e continuei trazendo pouca comida. E ela, mesmo assim, deixava mais da metade do prato! Quando, enfim, acertei a quantidade, recebi dela uma informação que foi uma decepção pra mim. “Sabe o que é, seu Wagner. É gostava mais da comida do restaurante aqui da frente. Se o senhor puder voltar a comprar o almoço lá, eu acharia melhor”. “Melhor? O fedorento??”, desesperei-me. Mas, já que ela queria, o que se havia de fazer...

Semanas depois, ela nos aparece anunciando sua gravidez. Demos os parabéns e perguntamos se ela achava bom continuar trabalhando, ao que respondeu positivamente. No entanto, na hora do almoço, outra surpresa quando eu descia para comprar o almoço dela. “Seu Wagner, eu agora estou comendo menos ainda, viu?” Vocês acreditam que ela só comeu um pedaço irrisório de um bife e um pedacinho de mandioca cozida? Fiquei desesperado, afinal, sabemos que gestantes têm de se alimentar muito melhor, ainda mais quando fazendo trabalho mais pesado. Enfim, a coisa não deu certo. Não pudemos arcar com a responsabilidade de manter alguém trabalhando sem se alimentar direito e carregando outro alguém na barriga. Ela mesma nos telefonou, dias depois, avisando que a gravidez estava a deixando muito enjoada e que não poderia mais trabalhar. Poupou-nos uma dispensa. Ainda bem.

Por fim, a atual: uma figura, também indicada pela mesma amiga, e recém-chegada dos confins do Maranhão. Chegou lá em casa acompanhada da irmã, já moradora de Brasília há alguns anos. Não falava nada e nada perguntava. De nada reclamava e nada pedia. Mas também nada certo fazia.

Foi classificada por mim como a verdadeira “destruidora de lares”. Na concepção física e material da palavra. Desmontou parte do armário da cozinha destinado a um forno microondas (que ainda não temos), espatifou uma mini-réplica do Pelourinho que trouxemos de Salvador e desparafusou, sabe lá Oxossi por quê, a porta do armário do banheiro.

Mas o pior ainda não foi isso. A filha de Deus não sabe passar roupa! As minhas camisetas ficaram uma desgraça. Nunca vi ninguém dobrar camisas daquela forma. Comentei com a Vivi que a maranhense estava querendo é fazer origami com as minhas camisas, de tanto que as dobrou. Quando eu abria uma delas, era uma tragédia. A roupa estava toda marcada. De cima a baixo e de dentro pra fora. Sinceramente, eu preferiria as marcas do varal.

No sábado passado, enquanto ela “arrumava” a casa, decidimos sair pra resolver algumas coisas na rua. A Vivi perguntou a que horas a vítima pretendia ir embora, ao que ela respondeu: “Sei não. Acho que quando eu terminar eu vou”. Ainda bem, pensei eu, temendo que ela decidisse compartilhar conosco, para sempre, do aconchego de nosso lar. Voltamos para casa por volta das 15h, achando que ela estaria na metade do serviço. Mas, que nada. A santa já havia ido embora.

A casa, infelizmente, não estava nem perto do nível de limpeza e arrumação que almejávamos. Mas também já decidimos que a moça também não volta mais.
Alguém aí tem uma agência de diaristas???

2 comentários:

Ana Laura Naves disse...

Gente, uma observação: a amiga que indicou as duas últimas diaristas fui eu!

Ita Goes disse...

"... a maranhense estava querendo é fazer origami com as minhas camisas, de tanto que as dobrou"

Hahahahaha vc desperdiçou uma diarista com habilidades artísticas?!

Beijos, como sempre mais uma história pra eu me acabar de rir!