sábado, junho 21, 2014

Que copa é essa, meu irmão???

Considero-me, no máximo, um aficionado sazonal por futebol, dedicando a ele minha atenção integral somente a cada quatro anos. Nas copas, assisto a todos os jogos, analiso todos os resultados e acompanho todos os debates sobre as partidas.

O que me inspira esta manifestação é a dissolução da mística de invencibilidade que envolve as grandes potências futebolísticas. E, pelo menos nesse quesito, a Copa do Brasil está sendo triunfal. É uma copa de gigantes cambaleantes.

Não que tropecem eles em suas próprias pernas, combalidas por suas eventuais fraquezas. Cambaleiam, isto sim, pela surpreendente força dos pequenos.
Se dos duelos entre os gigantes poderiam ser esperados resultados incertos, o mesmo não se poderia dizer de seus confrontos com os times de menos notoriedade. A certeza da vitória parecia ser apenas uma questão de tempo. De 90 minutos, mais precisamente.

Pois é: parecia.

O inesperado sacode levado pela campeã Espanha só não arregalou mais os olhos porque fora abatida pela sempre forte (embora nunca campeã) Holanda. Mas o seu sepultamento veio com a derrota de 2x0 para o Chile, que fez os súditos do novo rei já deixarem prontas as mochilas para voltar pra casa.

Maior impacto talvez tenha tido o chocolate alemão servido aos portugueses, detentores do que para eles era a joia da coroa: o melhor jogador do mundo na atualidade – Cristiano Ronaldo, o R7. 
Novamente, porém, era um duelo de gigantes. Entre gigantes.

Mas eis que, correndo por fora – por fora mesmo –, no batizado Grupo da Morte, a Costa Rica aplica uma surra na seleção duas vezes campeã mundial: Uruguai. O passeio de 3 x 1 sobre o adversário teria sido certamente comparado à sorte de principiante (embora não seja sua primeira copa) não fosse uma segunda vitória, contra mais uma campeã (aliás, tetra-campeã) mundial: a Itália. Vitória por 1x0. Magra? Sim, se se tratasse de uma favorita do torneio. Não, quando se leva em consideração a assimetria de tradição e condições de investimento no esporte que marca os dois países.

E a força dos pequenos continuou sendo a tônica deste primeiro momento da Copa. Portadora do maior gênio contemporâneo do futebol, a Argentina amargaria um constrangedor empate em 0x0 com o Irã (sim, o país dos aiatolás) não fosse a resistência, confiança, coragem e ousadia de seu trunfo máximo, Messi, que só desvirginou o placar na prorrogação da partida.

No mesmo dia, a potência alemã, sempre temida pela força, técnica e objetividade, se viu desnorteada ante o atrevimento africano de um país cujo nome corresponde ao adjetivo: Gana. Embora não tenha saído vencedora da partida, a seleção de Asamoah Gyan & cia segurou um empate (depois de estar à frente do placar) que é, proporcionalmente, uma vitória acachapante.

Portanto, que fique o Brasil com as barbas de molho. O 0x0 com o México é um sinal de alerta que se acende para todos os favoritos. Ainda que a equipe mexicana esteja longe de ser um adversário desprezível, sua resistência contra a seleção canarinho deixa claro que, pelo menos nessa copa, as camisas estão pesando menos que a força de vontade. 

terça-feira, novembro 26, 2013

O focinho do Pateta

O brasileiro passou a visitar com mais frequência o exterior e, naturalmente, volta de lá querendo para si as mesmas benesses da qualidade de vida dos países dito desenvolvidos. Esquece, porém, que para usufruir deste alto padrão de vida, europeus, norte-americanos (mais especificamente estadunidenses e canadenses) e japoneses lançam mão de uma série de obrigações e responsabilidades com as quais não estamos acostumados pelos lados de cá – ou, pior: que não queremos assumir.

Desejamos o mesmo patamar de saúde, educação, transporte, segurança, moradia, lazer encontrados nos países ricos. Mas paramos por aí. Não estamos dispostos a agir com o mesmo senso de coletividade que sustenta e viabiliza tais condições. Ou seja: só queremos o bônus, não o ônus.

A lógica perversa que nos caracteriza é mais ou menos essa: “os governos que se danem e façam de tudo para que eu viva tão bem quanto um dinamarquês. A responsabilidade é do governo, e não minha”. Pronto. Eis parte da receita de nosso insucesso.

Em vez de viajar para o exterior apenas para postar fotos no Facebook posando em frente à Torre Eiffel, bebendo uma legítima cerveja alemã ou apertando o focinho no Pateta lá na Disney, seria muito útil, também, observarmos o compromisso que as sociedades que visitamos (e que invejamos) assumem com suas nações.

De certo que há muita distorção social por lá também. Gente safada e que só pensa em si mesma existe em qualquer ponto da superfície terrestre. Mas aqui a sua presença é mais frequente. Na verdade, um lamentável traço cultural nosso.


Quer ter acesso a tudo de bom que existe lá fora? Nenhum problema. Mas faça por merecê-lo aqui dentro.

domingo, junho 02, 2013

Meia idade. Meia vida.

A ansiedade o fez quebrar a promessa feita a si mesmo de demorar-se ao máximo na cama em dias de domingo. Levantou-se cedo e imediatamente dirigiu-se à porta da sala para apanhar o jornal, deixado lá há pelo menos uma hora. Não se importou em abrir a porta de acesso à rua trajando apenas a calça velha e quadriculada de seu pijama. O peito nu desafiava o remanescente frio de um inverno recém ultrapassado e despertava o olhar curioso de uma vizinha idosa, que na calçada oposta à sua, regava as plantas da jardineira.
Agachou-se rapidamente e agarrou o exemplar espesso, cujos inúmeros cadernos eram impiedosamente descartados ao chão para que ele encontrasse logo aquele que lhe interessava: o caderno de cultura.
Uma mistura de sensações o atingiu quando viu, estampada na capa da editoria, sua foto em meia página. Tanto o título quanto a apresentação da entrevista, concedida após a premiação como escritor revelação do ano, lhe eram elogiosos.
Saíra bonito na foto. Pelo menos foi o que achou. Parcialmente sentado à ponta da mesa, foi fotografado de corpo inteiro, segurando o livro que o consagrara. Calça jeans e camisa xadrez aberta, por baixo da qual deixara aparecer a camiseta branca de que tanto gostava. O rosto estava expresso sem disfarces, captado sob um ângulo que favorecia aqueles que considerava seus traços mais marcantes: cabelos fartos, com têmporas levemente grisalhas; olhar sério, e misterioso, por trás dos óculos de armação de cor clara; queixo quadrado, cuja barba por fazer conferia-lhe um ar de desleixo programado, e um sorriso que, embora não estivesse manifesto na foto, aparecia lá, de alguma maneira – desafiando a interpretação do leitor.
Mas, sem entender exatamente por quê, deteve-se numa frase em particular do texto que o descrevia. O autor da entrevista escrevera que o escritor “desponta no universo literário com o impacto que as gerações contemporâneas de leitores acostumaram-se a ver apenas na ficção. Afinal, saltou do anonimato para a consagração com apenas uma obra publicada e em um período da vida em que diversos escritores já colecionam alguns títulos: a meia idade (...)”.
Meia idade. Meia idade... Meia idade? Repetiu e deu tom de indagação várias vezes à expressão, como se não a compreendesse ou não a aceitasse. Era, afinal, um termo que se acostumara a ouvir ao longo da vida, mas com o qual jamais pensou em efetivamente conviver. Meia idade, ele? Não poderia ser. Para ele, o termo só fazia sentido quando aplicado àqueles resignados com o passar do tempo ou cuja vitalidade inquestionavelmente os abandonara.
Mas não a ele, que não desagarrara-se da sensação da juventude. Os 43 anos de vida que agora ostentava eram, para ele, tão naturais (e vigorosos) quanto quaisquer 20 anos exibidos por universitários recém-chegados à fase adulta da vida.
Negara para si mesmo que o tempo também passara para ele, ou simplesmente não se deu conta da velocidade com que os anos se vão? Esta dúvida o atordoou por infinitos minutos. Lembrou das diferentes percepções de tempo que o avançar da idade produz. Não há criança, ou mesmo adolescente, que não considere uma pessoa de 30 anos praticamente um velho. E não há pessoa de 30 anos que não se sinta ao mesmo tempo desesperada por ter abandonado a efervescente faixa dos 20, e aliviada por ainda não ter atingido a dos 40.
Mas, para ele, o avançar da idade dava elasticidade a sua concepção de velhice. Já não considerava mais ancião aquele cidadão de 60 anos, idade da qual apenas 17 anos agora o separavam. Por isso, a expressão meia idade o incomodou menos do que o surpreendeu.
O que significaria, afinal, a meia idade? Uma meia vida? É isso? Teria já chegado (ou ultrapassado) a metade de sua existência? Esta ideia sim, o perturbou, tendo em vista que a infância e a juventude são vividas em estado de transe, de não-consciência, e, por isso, não permitem seu pleno aproveitamento, ou o seu aproveitamento consciente. Quando se é jovem, apenas vive-se como se o acúmulo dos anos só se expressasse e pesasse para os outros, não para si próprio. A ideia de avanço da idade, quando se é jovem, é tão distante quanto a longevidade que se espera atingir. O jovem acredita que o velho já nasceu assim e não consegue assimilar a informação de que o tempo passa numa velocidade acima da capacidade humana de acompanha-lo.
Sentiu-se ofendido pelo uso da expressão meia idade. Não pelo jornalista que a utilizou, mas por ele mesmo. Como pôde não ter percebido que, sim, aquela expressão aplicava-se a ele inclusive em aspectos demográficos, uma vez que a expectativa de vida está lá, friamente estabelecida?
Desestimulou-se, temporariamente, em ler a matéria sobre seus méritos literários. Precisava, agora, planejar alguma forma de viver a outra metade restante de sua vida.


terça-feira, março 12, 2013

Ditongos abertos

Muito mais difícil que adaptar-se ao novo é desapegar-se do velho. O novo, ainda que com todas as naturais resistências do estranhamento, chega com o sabor do desafio, do inusitado, da experimentação. O velho demora a desapegar-se. Está impregnado: no cheiro, no olhar, na alma. Há uma lembrança do velho a cada instante, em cada canto. A dificuldade de dissociar-se do velho talvez deva-se ao fato de que ele nunca definitivamente se vá. Fique ali, recluso, adormecido, latente (talvez), inesquecível (certamente). Mas é a partir do velho que constroem-se as histórias de vida; é a partir dele que criam-se as resistências, as fortalezas e alguma (apenas alguma) imunidade. A lembrança do velho é por vezes dilacerante, porque desfia até o que é isento de carne. Mas é igualmente cicatrizante, porque reedifica o espírito. O novo, recebe-se com os braços abertos da razão. Ao velho, agarra-se ferozmente com as garras do coração.

domingo, dezembro 09, 2012

Corrosões parciais


Não havia mais espaço para carinho. Não depois de 47 anos de casamento, pensou ela, acreditando profundamente que a criação dos 4 filhos, as muitas casas que montaram, e todos os problemas que superaram corroeram definitivamente qualquer chance de trocas de afeto. Nem mesmo agora, momento colossal de dor, quando a morte resolve carregar alguém tão próximo a ela. 

Ali, no salão em que o velório se desenrolava, a presença dos dois, lado a lado, era muito mais o cumprimento de uma convenção (algo meramente protocolar) do que o compartilhamento de uma dor que atinge de forma dilacerante a um mais do que a outro. Mas aí, para sua surpresa, ele discretamente segurou sua mão, mesmo sem que ninguém notasse. 

E, sem se preocupar com o que poderiam pensar, levou-a a sua boca e a beijou, demorada e delicadamente. Ainda que sem olha-la nos olhos, aproximou-se de seu rosto e disse, ao seu ouvido: “Eu estou aqui. Eu estou com você. E para sempre”. Foi então que ela percebeu que poderia até não haver mais espaço para o carinho. Mas sempre haveria espaço para o verdadeiro amor.

terça-feira, outubro 09, 2012

Da perfeição

A verdadeira perfeição reside na ausência de si própria, porque, quando absoluta, falta-lhe o necessário tempero da realidade.

segunda-feira, outubro 01, 2012

Simples assim

Observou que uma das mais impressionantes qualidades da vida é a sua capacidade de gerar surpresas. E constatou que o oposto nem sempre lhe é antítese. Muitas vezes, um perfeito complemento.

domingo, setembro 30, 2012

Agradecimento aos antiflamenguistas. Por um flamenguista.



O sentimento antiflamenguista é, no final das contas, a expressão do reconhecimento de algo muito especial que gravita em torno do Mengão. Os antiflamenguistas saboreiam as vitórias de seus times sobre o rubro-negro (ainda que magras) com um entusiasmo infinitamente superior ao que dedicam quando a vitória se dá sobre outros times.

E estão certíssimos ao fazê-lo. Afinal, em termos futebolísticos, o Flamengo (embora capengando nos últimos tempos), é, e sempre será, o inimigo público número 1, o time a ser vencido.

O antiflamenguista é tão visceral em sua crítica ao Flamengo porque sabe que o time da Gávea tem a maior e mais apaixonada torcida do Brasil, ainda que na maioria das vezes essa paixão seja exercida de forma estúpida, reconheço.

Não me proponho, aqui, a fazer ode ao Flamengo. De certa forma, é até mesmo o contrário. Meu time de coração tem vacilado técnica, tática e até mesmo intelectualmente nos últimos tempos. A contratação do moribundo Adriano é uma das provas disso (embora essa seja uma discussão pra depois).
Pretendo, isso sim, agradecer ao antiflamenguista (seja ele da agremiação que for) pela homenagem involuntária que presta ao meu time. Homenagem, sim. Fosse o Flamengo um time qualquer, desprezível ou desimportante, jamais receberia tanto a atenção e, principalmente, os impropérios que lhe dedicam.

Permaneçam vorazes em sua críticas, impiedosos em seus comentários, ferinos em suas adjetivações, mas, ainda que secretamente, reconheçam que, sim, há algo muito especial no reino do urubu, que, por mais que desperte o ódio declarado de muitos, revela, no fundo, a admiração de todos.
E sejamos pacíficos. Porque esporte é só esporte.

domingo, julho 01, 2012

Metáforas caninas



É preferível ser um cachorro vira-lata a um cão com pedigree. Bem nascidos e bem relacionados, os cães de raça pura são escravos de si mesmos e, principalmente, de sua vaidade. Isolam-se na medida do possível daqueles com quem são obrigados a conviver – para ostentar um certo ar de superioridade. Mas martirizam-se com isso, ainda que involuntariamente, porque deixam de lado sua essência canina para viver um personagem – transitório e superficial. Cercam-se de cuidados extremos e, às vezes, obsessivos. Tudo para não perder o status de cão de raça. E são, por isso, infelizes. Adoecem com mais freqüência e morrem mais cedo.
Já os vira-latas são exatamente o oposto. Por terem ciência de sua humildade genealógica, apegam-se ao que de fato interessa na vida: o que lhes faz felizes (a despeito do que os outros possam pensar). Por não terem quem lhes apadrinhem ou os superprotejam, os vira-latas aprendem cedo a se virar. A ausência de uma estirpe nobre os obriga, desde cedo, a valer-se da esperteza. Mas não da esperteza promíscua dos cães que transitam pelas altas rodas caninas, mas, sim, da esperteza para sobrevivência, inocente, por um lado, e surpreendente, por vários outros.
O vira-lata vive a vida em sua totalidade, apesar de todas as restrições sociais que o rodeiam. E vive mais feliz. E vive mais.

domingo, maio 13, 2012

As mães e às mães



Assumamos, homens que somos, a insuperável inveja que havemos de para sempre sentir em relação às aventureiras que enveredam pelo caminho da maternidade. Por mais que nos empenhemos em nossos papeis de pais exemplares, seremos, eternamente, coadjuvantes na intrigante missão de ter filhos.

Mais do que os óbvios laços físicos que unem as mães às proles, há algo de intangível, imaterial, imensurável que torna essa conexão tão única, especial e, para nós, inalcançável. Não há olhar que se compare ao de uma mãe, seja ele o do afeto, do conforto, do consolo, da compreensão, ou também o da repreensão, do desassossego ou da decepção. A mãe diz e transmite tudo no olhar, com um grau de precisão que só ela é capar de atingir.

A maternidade cria um mundo paralelo ao da vida comum da mulher. Estabelece um patamar de generosidade, tolerância e bondade muito superior àquele que rotineiramente nos marca. É como se as mães habitassem um universo cujo livre acesso só a elas é permitido. E transitam por ali acima das suas próprias falhas, compreendendo-se mutuamente apesar de todas as diferenças que manifestam no mundo real.

E que não se pense que ser mãe é ser perfeita. O mérito da missão maternal extrapola os acertos na criação de seus descendentes. Reside, inclusive (e sobretudo), na imperfeição que a condição de humano confere também à mulher. A mãe erra e deve errar. Com isso, faz o filho reafirmar para si mesmo que, apesar de humana, ela mantém inabalável o seu status de ser supremo, ainda que falho.

Sem mãe, não haveria sorriso.

sexta-feira, maio 04, 2012

Coisas

Reviu fotos. E constatou: sim, isso é inédito.

segunda-feira, abril 30, 2012

Tempos da ausência de coragem (e de caráter)

Das muitas crises que o mundo e as pessoas encaram atualmente, uma das mais dilacerantes, na minha franciscana opinião, é a crise da ausência de coragem (que, levada ao extremo, chega às raias da ausência de caráter). Não se trata da coragem de enfrentar perigos materiais, como animais ferozes, alturas inimagináveis ou esportes radicais. Tampouco refiro-me à coragem de tomar decisões (sair de casa, assumir compromissos, eleger uma carreira etc).


A coragem que nos está ausente é a da admissão de que, assim como aqueles que nos rodeiam, também somos falhos. Muitas vezes, bem mais do que eles.

Tem-se, rotineiramente (e erroneamente), estabelecido como coragem o agir de forma truculenta, tempestiva, agressiva e acusatória.

Na verdade, quem age dessa forma sabe, lá no fundo, que tenta esconder seus próprios erros ou sua própria mediocridade. A estratégia adotada, então, é a de apontar possíveis erros, incompetências e defeitos dos outros – para esconder os seus próprios. Ou seja, falta-lhe coragem para assumir que, sim, o erro pode estar consigo, e não com o outro. Mesmo que todas as provas mostrem o contrário, o covarde há de negar para sempre, porque falta-lhe grandeza para admitir que é imperfeito.

O sucesso ou insucesso desse ardil depende, na maioria das vezes, da oratória e da verborragia do covarde, uma vez que seus argumentos, quando os tem, não passam de fumaça.

Há outra covardia disfarçada de coragem: a do famoso "dizer tudo o que pensa". Não, meus caros, dizer tudo o que se pensa, ao contrário da crendice que está se popularizando, é uma grandíssima bobagem, um ato de arrogância e uma estupidez social.

Quem bate no peito para alardear que diz tudo o que pensa também não passa de um mentiroso contumaz e, especialmente, de um corajoso frustrado.

Primeiro, porque ninguém, ninguém mesmo (salvo os lunáticos), diz sempre e exatamente tudo o que pensa. Guardamos em nossos cofres mentais aquelas ideias e opiniões que, uma vez proferidas, repercutiriam negativamente contra nós mesmos. Por mais que algumas coisas que digamos também causem esse efeito, há uma série de tesouros mentais que ficam ali, guardadinhos da Silva, porque, se ditos, nos atingem mortalmente. São ideias e opiniões referentes ao campo das relações pessoais e também profissionais, institucionais.

Somos seres políticos em maior ou menor medida e, como tal, camuflamos muitos de nossos pensamentos em prol de algo que pretendemos alcançar, ainda que isso nos obrigue a silenciar sobre o que verdadeiramente pensamos.

A arrogância envolvida no ato de quem garante dizer tudo o que pensa está presente na falta de humildade de admitir que esses pensamentos podem não significar nada de minimamente aproveitável. Muitas vezes, essas ideias podem não passar de uma asneira retumbante, uma ofensa gratuita ou uma mentira deslavada. Afirmar que se diz tudo o que pensa é estupidamente acreditar que a sua opinião, de tão “fantástica”, deve ser imposta ao outro e, o mais risível, que deve prevalecer.

A esses covardes, minha piedade e meu desprezo.

quarta-feira, maio 11, 2011

O que passou

Chega um dia em que parte de nossa história definitivamente vira história.

quarta-feira, abril 13, 2011

Realimentando tragédias

Juro que tentei, mas não consegui resistir à tentação de comentar a cobertura da imprensa sobre a já batizada “Tragédia de Realengo”. Preciso explicar, inicialmente, que crimes dessa natureza conduzem a imprensa a uma situação de desconforto mesmo em meio à euforia que a sucessão de fatos alimenta: noticiar ou não eventos como esse? Certos de que essa indagação, até mesmo por sua superficialidade, não esgota a questão, uma outra pergunta (essa, sim) deveria permear as redações de nossos jornais: como cobrir crimes assim?

É preciso lembrar, sempre, que o papel da imprensa é, sim, informar. Igualmente, é necessário considerar que a busca pela informação se dá, no meio jornalístico, a velocidades desumanas, o que muitas vezes inibe a imprensa de fazer as reflexões a que nos dedicamos com mais calma. Mas é preciso considerar, também, o papel social da imprensa, tendo em vista o poder de reverberação quase inesgotável que suas ações comportam.

Se já há certo consenso sobre a não divulgação de determinados fatos (como suicídios), ainda há uma comprida jornada de debates a respeito da cobertura sobre massacres como o registrado na escola carioca. 

Se por um lado a emergência com que os fatos que diariamente bombardeiam as redações impedem ou dificultam certos tipos de ponderação, por outro, não é permitido a ninguém com tamanho poder, como a imprensa, abrir mão do bom senso.

Mas, o que seria ‘bom senso’ numa situação como essa, em que o horror e a brutalidade são as marcas mais evidentes da tragédia, e em que a busca pelo ‘furo’ (acirrada pela concorrência ampliada pela internet) insensibiliza nossos jornalistas? O bom senso, caros leitores, está exatamente no reconhecimento e na aceitação inegociáveis do papel social da imprensa, a sobrepor-se, em quaisquer circunstâncias, aos interesses editoriais (econômicos, financeiros...) dos veículos de comunicação.

Em termos práticos: nós, jornalistas, sabemos que a imprensa tem, sim senhor, o poder de influenciar corações e mentes. É óbvio que não se pode atribuir exclusivamente à ela as desgraças humanas com as quais somos rotineiramente brindados. É certo que há influências sociais, culturais, comportamentais, religiosas, biológicas agindo o tempo inteiro sobre os indivíduos. Mas a imprensa as amplia. Com isso, as mistifica, transformando em figuras quase messiânicas aqueles que dão vazão às suas loucuras e que buscam a mórbida notoriedade por meio do massacre de inocentes e de sua própria morte.

Não dá para não noticiar uma tragédia como essa, é verdade. Mas o exercício do bom senso limitaria a imprensa a reportar os fatos relacionados a esses eventos sem, no entanto, enveredar de forma insaciável na vida particular de quem as perpetrou. Os registros deixados por esses malucos descontrolados (cartas, vídeos, mensagens na internet etc) mostram que eles buscam notoriedade e seguidores. E os conseguem. 

Aqueles inclinados a ações desse tipo não só se identificam com os que as põem em prática, mas, sobretudo, adquirem a certeza do êxito.

De nada mais nos adianta perscrutar as rotinas por vezes macabras, por vezes banais, de psicopatas como o Wellington. Tais investigações jornalísticas apenas glorificam (para os que pensam como ele) seus atos. Deixemos aos especialistas e policiais certos tipos de investigação e nos dediquemos com prudência e zelo à atividade jornalística que a sociedade nos delega.  




domingo, março 27, 2011

Terra dos disfarces

Assim como acontece em todo o Brasil, Brasília também padece da maldição de ser a terra dos disfarces. Sempre que um problema não consegue ser resolvido (ou quando não há vontade ou coragem política para solucioná-lo), a prática mais recorrente é a de disfarçá-lo. Nos últimos dias, os jornais da capital têm abordado a proposta, a ser debatida no Legislativo local, que sugere a implantação do rodízio de carros, a exemplo do que é realizado em São Paulo.

Se fosse amparada por questões ambientais ou algo semelhante, essa proposta teria o meu incondicional apoio e adesão logo de partida. Mas a ideia, vejam só, é que o rodízio deveria ser implantado para se tentar aliviar o trânsito confuso de Brasília.

Tem se tornado prática nacional não se enfrentar o problema em suas bases, mas apenas em sua superfície. Com isso, não se resolve efetivamente o problema e ainda criam-se outros.

O problema do trânsito na capital federal, é claro, é influenciado, em parte, pela grande quantidade de automóveis nas ruas. Mas sua razão principal não é essa. Ela reside, isso sim, na incompetência administrativa, na falta de visão de futuro e (o que é mais grave) nos interesses escusos que rodeiam o setor do transporte público daqui.

Ir à raiz do problema seria enfrentar empresários sanguessugas, funcionários corruptos e políticos marginais, que fazem do sistema de transporte público um filão que certamente lhes engorda as contas bancárias em muitos dígitos. Mas aí é querer demais, né?

Um rodízio como o pretendido é uma proposta tão inócua quanto hipócrita. Joga pra debaixo do tapete a podridão que favorece a desordem, mas passa à parte da sociedade a impressão de que se está fazendo algo - quando na verdade não se está.

Essa notícia me causou o mesmo mal estar que senti à época do governo Arruda, quando o então digníssimo governador tirou da manga a inacreditável iniciativa de regularizar o trabalho dos flanelinhas. Meu Deus! Regularizar o que é, por natureza, inaceitável do ponto de vista legal! Afinal (que me perdõem os defensores da "categoria"), mas ser flanelinha não é profissão. Ninguém pede ou precisa dos serviços deles. Eles são impostos, na maioria das vezes, sob um clima de ameaças veladas (muitas vezes nem tão veladas assim). Além disso, usurpam espaços públicos como se lhes fossem particulares. Bastariam essas duas razões para que essa "regularização" jamais pudesse ser, sequer, cogitada. Mas, como vivemos em um país de absurdos rotineiros, muitas vezes nem nos damos conta de mais um.

E entre rodízios e flanelinhas, lá vamos nós...

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Presidente ou Presidenta?

Depois que a “tia Dilma” recebeu o aval para ser a primeira mulher a comandar o país, boa parte da população, e especialmente da imprensa, tem gasto parte de seu tempo tentando, desnecessariamente, definir se ela deve ser chamada de presidente ou presidenta (como quer a eleita). Bobagem pura. 

Não há nenhuma implicação sexista que justifique o emprego da segunda forma, ou seja, presidenta. Em minha opinião, ao contrário do que acredita a chefe de nosso Executivo, o uso desse termo de certa forma diminui a importância da façanha alcançada por ela. Quer saber por que? Ora, quem disse que os substantivos terminados em “ente” são exclusividade nossa, marmanjões? Quer um exemplo? Vamos lá: você já viu alguma parturiente do sexo masculino??

Levada a ferro e fogo a proposta de atribuir a letra A aos substantivos aos quais me referi, teríamos de ser, no mínimo, coerentes e aplicá-la igualmente aos adjetivos (já que vale pra um, que valha pra todos!). Aí, a coisa descambaria para um inominável caos semântico. Incorreríamos, na verdade, numa deselegância lingüística provavelmente (ou provavelmenta?) sem precedente (ou precedenta?) na nossa lusófona história. 
Façamos um exercício: substituir por A o E dos substantivos e adjetivos do texto a seguir.

“Depois de anos como católica fervorosa, dona Gertrudes converteu-se e virou crente. Sua filha, Hermenegilda, ao saber da notícia, caiu doente. Ficou tão mal que precisou ser hospitalizada. O médico que atendeu a paciente medicou-a e a deixou em repouso, dando-lhe alta logo em seguida. Mas Hermenegilda, famosa por ser prudente, resolveu confrontar a mãe, e lhe disse: ‘Mas, mãe, por que você sempre quer ser diferente?’. Sem entender a revolta da filha, dona Gertrudes retrucou: ‘E você acha que ser crente não me faz gente? O que importa, minha filha, é ser decente’.”

Agora, a versão com a nova redação:

“Depois de anos como católica fervorosa, dona Gertrudes converteu-se e virou crenta. Sua filha, Hermenegilda, ao saber da notícia, caiu doenta. Ficou tão mal que precisou ser hospitalizada. O médico que atendeu a pacienta medicou-a e a deixou em repouso, dando-lhe alta logo em seguida. Mas Hermenegilda, famosa por ser prudenta, resolveu confrontar a mãe, e lhe disse: ‘Mas, mãe, por que você sempre quer ser diferenta?’. Sem entender a revolta da filha, dona Gertrudes retrucou: ‘E você acha que ser crenta não me faz genta? O que importa, minha filha, é ser decenta’.”

Viram a besteira? Então, vamos deixar de frescura e voltar à paz gramatical.

domingo, janeiro 09, 2011

Expectativa

Há precisos 12 anos ele a conheceu - e não demorou muito para que por ela se encantasse. Encantamento recíproco, ela confessara a ele. As afinidades e os beijos inesquecíveis comprovavam a veracidade do encantamento mútuo. Após mais de nove anos sem se verem (um Atlântico os separando), surge inesperadamente a oportunidade de reencontrá-la. E ele cultiva uma deliciosa sensação de frio na barriga.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Superlativo momento

Consumo diário de cerveja. Máximo de cinco horas de sono por dia. Muito dinheiro gasto; farras impagáveis; gargalhadas em excesso, e reencontro com amigos do século passado. Sim, férias.

domingo, dezembro 05, 2010

BB, o Banco de Bosta

Antes de enveredar pelo protesto das próximas linhas, deixo claro que não sou, e provavelmente nunca serei, adepto da filosofia neoliberal que defende que serviço bom é serviço privado. Não. Sou defensor do serviço público, de um serviço público verdadeiramente a serviço da sociedade, com qualidade e alinhado às necessidades da população e, especialmente, às tendências do mundo real. Por isso, sinto-me absolutamente confortável para dizer que o Banco do Brasil, que se vangloria incessantemente de ser o maior banco do Brasil, é, na verdade, o PIOR banco do Brasil.

Em termos de atendimento ao púbico, o Banco do Brasil é uma vergonha institucionalizada. Está completamente desarticulado com o que há de moderno e eficaz no planeta Terra quando o assunto é prestar um serviço de qualidade aos clientes.

Já tive dezenas de aborrecimentos com essa lamentável instituição, das mais diferentes ordens. Se você é cliente desse banco e o acha bom, é porque certamente nunca precisou de um serviço que fugisse pelo menos um pouquinho do trivial. O fato de ter agências em todos os recantos do Brasil gera uma falsa sensação de bom serviço. Mas, quem precisa de algo pelo menos um pouquinho fora da rotina bancária sofre nas mãos desse banquinho de merda.

Os operadores de telemarketing do BB parecem usar aquelas viseiras de burro que os obrigam a olhar apenas para o que está imediatamente a sua frente. Não conseguem e não têm a menor criatividade, iniciativa ou boa vontade de tentar resolver algum problema do cliente. Nas agências, onde o serviço também é marcado pela incompetência, as reclamações também são infinitas. Certa vez, quando questionei a imbecil da gerente sobre a razão pela qual reduziram (sem qualquer informação) meu limite para pagamento via internet ou caixa eletrônico, ouvi dela que era “por questão de segurança”.

A jumenta não entendia que eu tinha dinheiro suficiente na conta e que queria pagar uma simples fatura de cartão de crédito – também meu! Em plena era da informação, o serviço obsoleto e burro desse banco nos obriga a ir às agências para resolver questões que todos os outros bancos em que tive conta sempre resolveram via telefone, anos atrás, e qualquer hora do dia (mesmo em fins de semana e feriados). Na bosta do BB, não. Você tem de ir à agência para resolver um problemas causado por eles.

Aí, a gerente, diante da minha impaciência e incredulidade com tamanha burrice, disse que realmente era para minha segurança. “Já imaginou se o senhor for seqüestrado, senhor Wagner?”. Não agüentei. Olhei pra cara da anta e falei. “Se um dia eu for seqüestrado e o bandido pedir pra pagar a minha fatura de cartão de crédito, eu digo que este mundo está salvo e que esse bandido será meu amigo!” As pessoas ao meu redor, certamente solidárias ao meu drama, e muito provavelmente aguardando a sua vez de passarem por aborrecimentos semelhantes, não só riram, como concordaram e teceram alguns comentários de reprovação à postura do BB.

Já tive muitos problemas com esse banco (que nem vale mais a pena relatar), e hoje tive mais um. Nem foi dos mais graves, mas foi o suficiente para não me permitir mais suportar calado (ou sem me manifestar de alguma forma) à tanta burrice e descaso. Na verdade, desde ontem tento fazer uma simples operação de transferência, chamada DOC. Como é fim de semana, minhas opções eram telefone ou internet. A informação era de que os serviços estavam indisponíveis.

Bem, deixei para hoje. Fui a um shopping de Brasília com o intuito de assistir a um filme no cinema, comprar um presente pra minha sobrinha e, de quebra, tirar uns trocados num caixa eletrônico, até mesmo para pagar o estacionamento do shopping. Afinal, em plena época do dinheiro de plástico, poucos são os que andam com cédulas nas carteiras.

Ao chegar a minha vez de ser atendido na fila do cinema e entregar meu cartão para fazer o pagamento em débito, o atendente informou que o cartão estava com o sistema fora do ar. Tudo bem, pensando ser um problema localizado, saí da fila e fui ao caixa eletrônico do BB para tirar dinheiro. Estranhei quando não vi uma fila diante da máquina e, para constatar que havia mesmo algo estranho, deparei-me com a mensagem pedindo para utilizar outro terminal. Tentei um do banco 24 horas. Mesmo pagando taxa relativamente alta, não me importei, até porque era a única opção.

Vi que algumas pessoas à minha frente saíam irritadas depois de tentar utilizar a máquina. Mas pensei que eu teria mais sorte. Engano. Ao inserir meu cartão, li a mensagem de há uma falha de comunicação com a minha instituição bancária, ou seja, a bosta do Banco do Brasil. Já irritado, telefonei pra lá, até mesmo para desabafar. Mas, e quem disse que o serviço de telefone estava funcionando? Depois de o idiota aqui ter digitado os números da agência, conta bancária e senha, surgiu a mensagem de que “por problemas técnicos a operação não foi realizada”. Acontece que sequer cheguei a fazer alguma operação, e, cinicamente, a ligação cai na cara do cliente. Tentei muitas outras vezes, só pra ter certeza de que o problema não era comigo ou com meu telefone. A mesma coisa, em todas as tentativas.

Meu drama começou a se desenhar. Não levei o outro cartão de crédito que possuo, não estava com talão de cheque e, em minha carteira (pra minha sorte), jaziam apenas duas cédulas de R$ 2,00 (algo raro, porque realmente não costumo carregar dinheiro algum). Meu medo não era mais nem deixar de assistir ao filme, não poder comprar o presente da minha sobrinha ou deixar de fazer o lanche que eu estava tão disposto a fazer. Era, isso sim, ficar preso no shopping por não poder pagar o estacionamento. Tá, ainda bem que não aconteceu, mas seria uma boa razão pra um processo por danos morais contra essa instituiçãozinha de merda. Corri para pagar o estacionamento, porque depois de duas horas o preço aumenta, e saí de lá direto a um supermercado onde existe um caixa do BB. Sou otimista, vocês estão vendo. Mas, pra minha decepção, cheguei lá e novamente me deparei com a mesma mensagem. No caixa 24 horas também a mesma coisa. Absurdo. Eu ainda precisava comprar algumas coisas no supermercado, mas, sem dinheiro, sem cheques e sem cartão de crédito, só se eu aderisse à marginalidade.

Pois é, desculpem o desabafo, mas esses sucessivos desrespeitos desse banco merda são inadmissíveis. Por isso, faço aqui meu protesto, ainda que silencioso. Caso você também tenha queixas, pode-as deixar registradas aqui.